quarta-feira, 17 de abril de 2013

Reticências de um Saudoso Reticente...



Às vezes, escreve-se tristeza para soar alegria, exorcizar ou agradecer, eu não sei.
Estávamos numa estação, por dois anos, andávamos por todas as direções, nos afastávamos e nos reuníamos em pequenos esbarrões, porque eram pequenos, porém, soavam fortes ao coração. Um dia, avistamos o trem, era o começo e o fim de tudo. Era barulhento, mas produziu entre nós o silêncio no espírito, a mudez das palavras e foi assim que você subiu no trem, calado e sem se despedir. Eu fiquei, inevitavelmente... Tarde demais é o tempo, o tempo, sempre o tempo... A nos enganar que passa por nós como seta, ferindo quem estiver pela frente. Ele passou e, durante todos estes anos, eu o sinto em mim como um eterno calor de um toque, como as ondas provocadas por pedras atiradas num lado, como as reverberações do som daquela gota que se forma em meio a íris e caí, salta dos olhos e desaparece no chão deixando apenas o ecoar, ecoar do choque. Hoje, eu sonhei com você e acordei saudade, olhei ao redor e ainda estou aqui, na estação.
O vento soprou o rascunho de minhas mãos. A moça, que também esperava, o recolheu e disse: — Que linda frase! Fiquei tomado por aquelas palavras. Sim, em sintaxe, as orações são frases, porém, o contrário não se dá, porque há frases nominais e a única condição para que exista uma oração é um verbo. Ela estava certa!
 Pensei, portanto, numa maneira de enxugar o texto. Um modo de não parecer tão prolixo com o tempo, com as lembranças... Senti um fio de esperança. Procurei o verbo que as orações solicitavam e descobri o verbo AMAR. Frases nominais? O nome não digo, não confesso, não revelo, sepultei em meu coração. Não fiquei satisfeito e resolvi transformar tudo na palavra SAUDADE, mas saudade é muito dolorida, não me cabe no peito, sangra a carne, gela os ossos...
Chorei. Foram três gotas finais que bastaram para transformar a palavra em sinal gráfico: RETICÊNCIAS (...) É assim que o amor ficará tatuado em meu coração.


Roberto Terra

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